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REFLEXÃO: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?”

“Anjo – Que andais aqui fazendo?
Alma- Faço o que vejo fazer
                      Pelo mundo.
Anjo – Ó Alma, is-vos perdendo;
           Correndo vos is meter
           No profundo.
           Quanto caminhais avante,
         Tanto vos tornais atraz
                     E atravez.
         Gil Vicente, Auto da Alma

 

“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt 16, 26).

Passamos a vida a ouvir, e nós, por vezes, repetimos, como caixas de ressonância: “situações excecionais exigem medidas excecionais”. Temos refletido sobre esta insistência que, apesar de entendermos o enquadramento contextual, não deixa de insinuar uma desculpa, pois qualquer medida deve estar vinculada à sua situação, no aqui e agora e, nessa medida, será sempre excecional, porque nova e adequada ao momento, seja ele em tempo de tempestade ou de acalmia. No entanto, intuímos algumas razões para esta repetição: uma será porque todos o dizem e convém estar na moda, mesmo não sabendo o verdadeiro significado e em que situações se aplica, outra servirá para se legitimarem agendas e interesses pessoais. Há ainda quem use a expressão, como profetas da desgraça, para instaurar o reino do medo, da dúvida, da incerteza. Mas o pior de tudo são aqueles que, ao abrigo da situação excecional, acham que podem pôr em causa os direitos, valores e princípios, em vigor em tempos de normalidade, gerando com isso inquietação, perturbação, desordem, caos. Como referem as altas figuras do Estado, a democracia não está suspensa, não vale tudo. São nestes momentos que vemos quem faz a diferença, quem reflete e decide com serenidade e bom senso, quem age com prudência e tranquilidade, quem fala e orienta com esperança e alento. É nestes momentos, talvez mais que em nenhum outro, que revelamos aquilo que realmente somos.

  O Evangelho de João 11, 1-45 diz-nos: «As irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”. Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. Então, disse aos discípulos: “Vamos de novo à Judeia”. Os discípulos disseram-lhe: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?” Jesus respondeu: “O dia não tem doze horas? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se alguém caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz”. Depois acrescentou: “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo” (…) Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias». Desde há semanas que parece a escuridão total, parece que estamos a definhar. Como que uma pedra caiu sobre a nossa cabeça e é a barreira que nos separa do mundo real. Estes quatro dias de Lázaro na tumba são o símbolo do limite do tempo e até mesmo do espaço. Em Deus, tudo é levado à perfeição, não há caos. Estes quatro dias na tumba, que nos sugerem os 40 dias da quaresma, servem para reconhecermos a nossa limitação. Quando parecia que tínhamos todo o tempo do mundo, somos neste momento escravos do tempo e não temos tempo para nada. O filósofo Eugen Rosenstock-Hussey refere que: «o tempo maltratado exprime-se, primeiro, através do afastamento da capacidade de estar no presente». Corremos o risco de querer fazer tudo e não estar presentes em nada. Não estamos de corpo e alma naquilo que fazemos e dizemos. Estamos fragmentados e, como tal, nunca podemos fazer o melhor nem dizer o que é sábio. Se vislumbramos algum tempo de pausa, no presente, logo temos o passado a atormentar ou o futuro a inquietar. Um grito, um email, alguém que chama, nos traz de novo ao alvoroço do presente. Há um provérbio inglês que nos lembra que “aquele que vive a galope, cavalga a trote em rumo ao diabo”. Deixamos de ser nós, para nos apresentarmos naquilo que temos de pior, com a impaciência, a irritação, a ansiedade e, por vezes, com a outra face, a da excitação, da euforia e do delírio. Até as rotinas estão alteradas – pequenos almoços feitos à hora do almoço, almoços encostados ao lanche, quando não mesmo ao jantar. Recuperamos a ceia, é certo, mas como partida para uma corrida noturna. Não conseguimos equilibrar a quantidade e a qualidade das horas que nós e os mais novos passamos diante de computadores, tablets e telemóveis. Aquilo que era uma má exceção, das nossas crianças, alunos, de se deitarem tarde por estarem a jogar online, e de manhã estarem ensonadas nas aulas, nestas semanas, tornou-se numa boa regra: poderem estar a trabalhar até altas horas da madrugada e dormirem toda a manhã. Para além disso, com este isolamento, perdemos a etiqueta, isto é, as regras sociais de comportamento e comunicação na internet. Expomos informações e comentários, enviamos mensagens e emails fora de horas e até nem respeitamos os dias de descanso. Quem caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz da sabedoria e do discernimento. É um despautério generalizado. Mas logo vem alguém colocar a questão: sou eu que tenho o direito de não ver e não ler em horas que só me pertencem a mim ou são os outros que têm o dever de não enviar? Nunca se falou e usou tanto as TIC como agora. Até os mais céticos lhe prestam culto. Começamos a temer ser apelidados de analfabetos digitais, de velhos e inaptos.

  Como disse o Papa Francisco, na oração pela humanidade, partindo de Marcos 4, 35, «desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda». O que fazer agora? Os discípulos acordaram Jesus, nós “acordamos” as TIC. E neste “messianismo mediático”, nesta “Nova Jerusalém”, como, já em tom profético, lhe chamava P. Lévy, aparecem as videoconferências, as aulas assíncronas e síncronas, o teletrabalho, e até nós temos, quase por obrigação, que nos reinventar num “homem digital”, num “professor digital” e até num “padre digital”. O que tanto nos preocupava para a harmonia do crescimento dos jovens – a dependência da internet – é agora a tábua de salvação que lhes recomendamos. E os livros que andamos um ano letivo a repetir que os nossos alunos não lêem? E as culpas que atribuímos às atividades em excesso que tinham, como justificação para a falta de hábitos de leitura? Andamos muito confusos, não com necessidade de nos reinventarmos.

  Nós sabemos que a nossa imagem pode andar por todo o mundo, sem o nosso consentimento. De repente, em nome da eficácia e da necessidade de quebrar distâncias, parece blasfémia dizer não a essa divulgação, como se não tivéssemos o direito de escolher o anonimato. Ficamos indignados quando a residência de um amigo é invadida por alguém sem autorização, mas não nos perturba quando se invade o domicílio, a reserva da vida privada, da intimidade da vida familiar, através dos recursos tecnológicos, como é o caso das filmagens e das escutas. Mesmo de forma inadvertida e involuntária podemos estar a expor memórias familiares, o que somos e temos. Nunca fomos tão invadidos na nossa intimidade e privacidade, sem falar de um espaço “sagrado” como é a nossa casa, em que agora não estamos só nós, em que nos entram casa adentro mais vinte pessoas, com os seus quarenta olhos e quarenta ouvidos. Sempre em nome da eficácia! As imagens e sons que hoje são gravadas sem que a gente saiba serão as que vão correr desgovernadamente pelas redes sociais, amanhã, sem qualquer tipo de controlo. Se há quem busque essa visibilidade no seu dia a dia, e que não queira exercer o seu direito de reserva da imagem, outros há, nos quais nos incluímos, que afirmam esse direito como um reduto inalienável.

  Os estímulos sonoros e a luz brilhante emitida pelos ecrãs do computador e do telemóvel reduzem a produção de melatonina, hormona que regula o ciclo sono-vigília. Vários estudos demonstram que a melatonina contribui para uma melhor qualidade do sono, um sono reparador, por aumentar o tempo total desse período. Sem esta hormona, é mais difícil adormecer e há maior probabilidade de despertar durante a madrugada, provocando distúrbios no sono. Esta hormona também tem propriedades antioxidantes que podem contribuir para controlar doenças psicológicas e relacionadas com o sistema nervoso, estabilizar os estados de humor, controlar os sintomas como a tristeza, o aumento do apetite e a dificuldade de concentração, para além do fortalecimento do sistema imunitário. A melatonina contribui ainda para a redução da produção de ácido no estômago e também de óxido nítrico, que é uma substância que induz o relaxamento do esfíncter do esófago, reduzindo o refluxo gastroesofágico.

  O deslumbramento e o facilitismo do uso das TIC, por parte de miúdos e graúdos, dá-nos uma sensação de à-vontade e segurança completamente enganadora, porque nos torna mais imprudentes, inadvertidos, desleixados, incautos, desprevenidos. Os hackers não desapareceram, como adverte uma notícia, bem recente, publicada no Diário de Notícias: “numa época em que estamos todos tão dependentes da internet, os hackers e os ataques de phishing estão mais ativos que nunca, e o Zoom não lhes escapa. Vários são os relatos de conferências online interrompidas por piratas informáticos, que correspondem ao novo movimento #Zoombombing que consiste na interrupção de conferências ou aulas na aplicação com imagens pornográficas, racistas ou de conteúdo inapropriado”. Nestes ataques de phishing, os hackers tentam de maneira fraudulenta obter passwords e números de cartão de crédito, através de site ou email que parece idêntico a uma entidade legítima, mas também se verifica a disseminação de software malicioso através de links e attachments e ataques de ransomware, em que o conteúdo do computador é basicamente capturado por um hacker.

  Com as escolas fechadas, as crianças passam mais tempo online e verificou-se um crescimento da busca de materiais de pedofilia, segundo dados da Europol. Este desconcerto também se revela no aumento da violência doméstica.

  Enquanto pais, professores, educadores, devemos definir o horário de trabalho, as pausas, os limites para a utilização da internet e dos e-mails, que a utilização das TIC seja feita de forma muito prudente e racional, avaliando não só as suas potencialidades, mas também os perigos que nos podem trazer. Nunca devemos esquecer que as TIC valem o que valem, isto é, dependem do valor e da utilização que cada um de nós lhes der, pois elas, por si mesmas, não são educativas, não melhoram o ensino, nem tão pouco são a panaceia para a educação.

  Os pais são insubstituíveis na criação de uma relação de conforto para a transmissão de valores e saberes. Ouvimos muitas vezes o chavão que é preciso “sair da zona de conforto”, que revela a confusão entre os conceitos de comodismo e de comodidade. É verdade que temos de sair da indiferença, da preguiça, mas precisamos de permanecer nas zonas de bem-estar, de conforto. Aonde regressamos depois de um dia de cansaço, de frustração, de insucesso, de tristeza, de dor? – à zona de conforto, onde restauramos as forças, fortalecemos o ânimo, somos consolados, encontramos o bálsamo. Nada nem ninguém pode ocupar o lugar dos pais, com a sua presença, os momentos de brincadeira, os diálogos, as partilhas de experiências e memórias, que criam um ambiente fundamental para o desenvolvimento da inteligência emocional das nossas crianças.

  O professor não se pode esquecer que continua a ser a única e válida mediação, por mais meios técnicos que possa utilizar e que nada o pode afastar daquilo que é essencial, isto é, o seu aluno. É o professor que faz a diferença, que deixa uma marca indelével na história de vida dos seus alunos. Sabemos bem definir o professor que nos marcou para a vida. Talvez fique esquecido, no final dessas contas, se usava caneta de tinta permanente, esferográfica, acetatos, powerPoints, iPads, quadros interativos, ou o que ainda está para ser inventado. O professor é que é o verdadeiro agente de mudança, não a tecnologia que criou ou utiliza, por muito importante e útil que seja. A criatura não pode nunca ultrapassar e substituir o seu criador, nem reduzi-lo a escravo. Vale a pena lembrar o que Daniel Pennac diz dos professores que o marcaram: “A imagem do gesto que salva do afogamento, a mão que nos puxa a despeito das nossas gesticulações suicidas, a imagem bruta de vida de uma mão solidamente agarrada à gola de um casaco é a primeira que me ocorre quando penso neles (…) quando regressavam a casa, depois de corrigidos os nossos deveres ou de prepararem as aulas, não deviam voltar a pensar em nós. Tinham com certeza outros centros de interesse, uma curiosidade desperta, que devia alimentar a sua força, o que explicava, entre outras coisas, a sua impressionante presença na aula”.

  A escola não pode perder a primazia no controlo do processo educativo, nem vacilar quanto à sua identidade e missão. A escola do século XXI é aquela em que professores, pais e alunos, com sabedoria e responsabilidade, participam na sua construção e onde é valorizada a função única e insubstituível de cada um dos protagonistas educativos, como verdadeiros “(lab)oratórios de humanidade”.

  Corremos o risco de que as medidas desgarradas e urgentes que tomamos hoje, que nos desgastaram, e que por momentos foram bem-vindas, e até elogiadas, rapidamente, devido à volatilidade das circunstâncias e a um vírus invisível, mas que interfere de forma desconcertante nas nossas vontades e nos nossos comportamentos, passem a ser um exagero e altamente criticadas.

  Ouvimos dizer que nada vai ser igual, depois desta pandemia, que finalmente vamos abrandar. Nós não somos profetas nem filhos de profetas, mas pensamos que vai ser mais do mesmo. A avaliar pela euforia, nas redes sociais e outros meios de comunicação, com que se tenta a todo o custo “matar o tempo”, ocupando-o o mais possível, percebe-se que talvez não seja desta que o mundo irá quebrar o seu ritmo alucinante. A esperança de que se assistirá a um maior despojamento, a uma maior interioridade, talvez não passe disso. O tempo, devorador, o deus Cronos, da mitologia grega, que devorava os filhos à nascença para não ter um sucessor, que quer enterrar tudo na sua garganta, continuará a reinar entre nós. Este tempo mensurável abafa a outra conceção de tempo que, essa, sim, dá-nos liberdade, integra-nos – o Kairós, uma outra expressão da tradição grega para designar o tempo, como sendo o momento certo, a oportunidade, a medida certa. Acreditamos, infelizmente, que vamos ser absorvidos por um ritmo alucinante para recuperar o tempo perdido. Portanto, certamente que vamos fazer aquilo que sempre fizemos, pois não temos tempo a perder, nem mais dinheiro para gastar.

  O que vai fazer a diferença, quando voltarmos à normalidade dos dias, pois o que passou já estará esquecido nessa altura, serão as estratégias, as propostas, as decisões que temos para apresentar às pessoas e, mesmo num contexto de recessão económica, é o que as levará a ver como adequado, justificável e assim compreender, sentir, integrar e finalmente aderir. Só terá essa visão para os dias mais claros quem, nos cinzentos, num olhar distanciado, procurou a insinuação dessa linha de horizonte. Não duvidamos que vamos viver alterações comportamentais, sociais, económicas e psicológicas. Vai ser um tempo de medos e desafios, de reflexão e ação, mas, como diz Victor Frankl, psiquiatra e neurologista, que sobreviveu aos campos de concentração nazis, fundador da logoterapia, terapia baseado na busca pelo sentido da vida e na importância do espiritual, «Quem tem um “porquê” enfrenta qualquer “como”».

  Há um antigo ditado que costuma circular entre cirurgiões ingleses que diz que “É preciso três meses para aprender a fazer uma cirurgia, três anos para saber quando é preciso fazê-la e trinta anos para saber quando não se deve fazer uma operação”. Como é difícil esta última aprendizagem, tão intrinsecamente humana!

  Neste momento, devemos manter os mesmos padrões de comportamento que seguimos na vida real. O frenesim no andar dos dias leva-nos a construir um túmulo, onde ficamos presos nesta pressa sem fim, que nos enreda num “feitiço do ininterrupto”, como nos alerta Karlheinz A. GeiBler. Estamos cheios de tanta tralha que afeta os nossos sentidos, estamos cheios de tudo, mas que vale pouco. Vamos paulatinamente ficando “atados de mãos e pés com os lençóis mortuários”, paralisados de cansaço, e o “rosto coberto com um pano” pela vergonha que, por vezes, sentimos de nós mesmos, por aquilo em que nos tornamos. É um rodopio que nos faz perder o norte. Retomamos o número 4, que nos remete para os quatro pontos cardiais, para podermos encontrar o sentido da nossa vida e escolher a melhor parte, como fez Maria. Aquele que vive na e com a melhor parte todos os dias, vive o tempo certo e na medida adequada, compreende aquilo a que Karlheinz A. GeiBler chama bem-estar temporal.

  Na morte aparente de cada um de nós, Jesus condói-se, comove-se e chora. Reza ao Pai e liberta-nos das ataduras da morte. Mesmo quando fazemos escolhas de mal e de morte, há sempre um “sai para fora” que é mais forte. Deus não nos criou para o túmulo, mas para a vida. Como diz Almir Satter: “cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz”. E ser feliz é poder sair para abraçar, amar, respeitar e ser solidário com os outros.

  O Papa Francisco recorda-nos, no entardecer do dia, naquela praça sem ninguém e num silêncio cheio de tudo, que: «rever-nos nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na popa, na parte do barco que se afunda primeiro… E que faz? Não obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).

  Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4, 38) Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: «Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados.

  A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.

  Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.
Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»

  «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais».

  Victor Frankl partilha a sua vida dizendo-nos que “nada proporciona melhor capacidade de superação e resistência aos problemas e dificuldades em geral do que a consciência de ter uma missão a cumprir na vida”… “pode-se tirar tudo de um homem, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho”. Isto não é mais do que “escolher a melhor parte”.

  O místico Eckart escreve que o próprio Deus entrou no tempo, por isso, o transformou. Nós queremos ser testemunhas ativas dessa transformação, fora e dentro de nós, por isso, nos caminhos da vida, juntos, lado a lado, e mesmo que nos digam que estamos em isolamento social, também nós reafirmamos a fé, sinónimo máximo de liberdade: sabemos que Tu estás e nós queremos estar junto a Ti. O amor que sentimos é tão arrebatador que não conseguimos calar, sem medo nem vergonha, tal como Paulo, “sabendo que a tribulação produz a paciência, a paciência firmeza, e a firmeza a esperança. Ora, a esperança não engana, porque o Teu amor foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (cf. Rm 5, 4-5). Queremos gritar ao mundo que Tu és o Deus Santo, o Deus forte, o Deus imortal, que o Teu amor é maior que o risco que podemos enfrentar. O Teu amor não conhece limites, o Teu amor consegue o impossível. A Tua presença constante, poderosa e eficaz manifesta-se no que somos, dizemos e fazemos e por, com e em Ti, para quem tem fé, tudo é possível.

  Senhor como é bom estares na proa do nosso barco, e ouvir-Te dizer: «Não tenhais medo: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”. (Mt 28,20).

 

EPHATA
Helena Sousa
José Luís Oliveira